Navantia aspira a ser como Naval Group, do Estado francês e com 35% nas mãos do gigante de defesa Thales
O presidente dos estaleiros públicos espanhóis abre a porta à entrada no futuro de capital privado e põe o exemplo francês, com uma empresa estatal mas com um parceiro do setor da defesa, que também tem participação pública
Montagem com o presidente da Navantia, Ricardo Domínguez, sobre uma imagem de arquivo do estaleiro da Navantia em Ferrol, no lançamento de uma das fragatas F-11. Fotos: Europa Press
Justo quando Navantia está mais perto de sair dos números vermelhos, liderando projetos europeus de defesa naval e com o setor em alta devido ao rearmamento, o presidente dos estaleiros públicos espanhóis surpreende ao abrir a porta para a entrada de um sócio privado. Ricardo Domínguez indicou nesta segunda-feira, em uma conferência em Bilbao, que esse capital “deveria chegar” a longo prazo ao acionariado, para facilitar os investimentos que a indústria necessita para responder à alta demanda no âmbito da defesa. O executivo andaluz não falou levianamente, pois colocou como exemplo, no caso do Naval Group, gigante liderado pelo Estado francês, mas cujo 35% do capital está nas mãos de uma empresa tecnológica, a Thales. No entanto, esta, embora seja uma empresa cotada, também conta com a administração pública como principal acionista.
Navantia está controlada 100% pelo Estado através da SEPI, a Sociedade Estatal de Participações Industriais de Belén Gualda. No âmbito de uma conferência organizada pelo Deusto Business Alumni e PKF Attest, Domínguez insistiu que os estaleiros espanhóis poderiam continuar nas mãos do Estado, embora com uma posição minoritária de um sócio privado e industrial.
O espelho no qual Domínguez se inspirou foi o do Naval Group, que é, um dos grandes rivais da Navantia na Europa. Não por acaso, acaba de levar o contrato ao qual aspirava a dona dos estaleiros de Ferrol para construir quatro fragatas para a Armada da Suécia, dentro de um programa avaliado em cerca de 3.900 milhões de euros.
Sobre a possibilidade de, no futuro, dar entrada a um sócio privado, Domínguez indicou que “Naval Group é muito francesa, muito do Governo francês”, mas “tem sua parte privada importante”.
Três vezes mais empregados
Um olhar sobre as métricas e a estratégia de negócio do grupo francês pode dar pistas sobre a futura rota da Navantia, embora seja preciso ter em conta que o Naval Group quase triplica os estaleiros espanhóis em pessoal, com cerca de 17.000 empregados contra os 5.636 empregados que o grupo dependente da SEPI somava no final de 2024 (os dados do exercício de 2025 ainda não são públicos).
Segundo o último relatório anual do Naval Group consultado pelo Economía Digital Galiza, no final de 2025, os estaleiros franceses estavam participados em 62,25% pelo Estado francês e em 35% pelo Thales Group, ficando 1,57% do capital nas mãos de empregados atuais e antigos através de um fundo de investimento coletivo.
A entrada do capital privado no Naval Group ocorreu há já vários anos, em 2007, quando a companhia estatal adquiriu o ramo francês de atividades navais da Thales, assim como as empresas Armaris e Mopa2, que estavam a cargo de um projeto de construção de porta-aviões para a Marinha francesa.
Perdas frente a lucros
O Naval Group fechou o ano passado com uma cifra de negócios que rondou os 4.700 milhões de euros, um aumento de 7,5%. Para estabelecer, novamente, uma comparação aproximada, embora o faturamento da Navantia tenha crescido notavelmente em 2025, em 2024, último exercício com dados oficiais, alcançou 1.528 milhões de euros, um aumento de 6,6%.
Embora a Navantia, segundo recentes declarações do seu presidente, esteja mais perto de sair das perdas, graças ao aumento da sua carteira e ao contrato estrela com a Royal Navy, que resultou na compra no Reino Unido dos estaleiros Harland & Wolff, terminou 2024 com um negativo de 197 milhões de euros.
O Naval Group também difere da Navantia na sua rentabilidade. O grupo fechou 2025 com um lucro líquido consolidado de 239,2 milhões de euros. Resultado muito distante das métricas da Navantia, embora abaixo dos 350 milhões que anotou em 2024. O resultado operacional, próprio da sua atividade, ascendeu a 278,4 milhões de euros, acima dos 270,5 milhões do exercício anterior.
E, como é o sócio privado do Estado francês no Naval Group? Segundo a informação consultada por este meio, no final do ano passado, a administração pública francesa detinha uma participação de 26,6%, contra 26,59% da Dassault Aviation, sendo seus principais acionistas.
O ano de 2025 terminou com vendas de 22.126 milhões de euros, um aumento de 7,6%, e um lucro líquido de 1.675 milhões de euros.
Casos similares em Espanha
Tendo em conta esses dados, Ricardo Domínguez abriu-se à possibilidade de que a Navantia conte com um sócio privado, tomando como exemplo o Naval Group, mas, na verdade, a Thales, a companhia cotada que está no capital dos estaleiros franceses, apesar de sua condição de cotada, também tem o Estado francês como sócio majoritário.
Se em Espanha se procurasse uma companhia com uma estrutura similar à da Thales, tendo em conta também o setor de operação, a mais aproximada seria a Indra, cotada no Ibex e com o Estado espanhol, através da SEPI, como sócio majoritário com 25,1% do capital.
O presidente da Navantia também falou nesta segunda-feira da possibilidade de uma troca de capital com outras indústrias e da criação de sociedades conjuntas para alianças concretas. Nessa linha, espera-se em breve a constituição de uma participada com a corporação italiana Fincantieri para o desenvolvimento de uma corveta para defesa, uma iniciativa que conta com fundos europeus.