2026: O futuro não espera por quem procrastina

O mundo, a Europa, a Espanha e Portugal enfrentam o custo acumulado da inacção

Introdução — Quando a procrastinação deixa de ser uma opção

O ano de 2026 dificilmente será recordado como um momento de rutura repentina. Não haverá, em princípio, um colapso financeiro mundial, uma nova pandemia ou um choque político comparável aos que marcaram a última década. Ainda assim, poderá ser identificado como o momento em que se tornou impossível continuar a ignorar o custo acumulado da procrastinação. Um ano de confirmação, e não de surpresa.

Durante muito tempo, no mundo ocidental — e particularmente na Europa —, a prudência foi confundida com inacção, a estabilidade com progresso e a gestão do dia-a-dia com a estratégia de longo prazo. As sucessivas crises desde 2008 criaram a ilusão de que a política económica e a governação consistiam essencialmente em reagir, amortecer impactos, mobilizar recursos públicos e ganhar tempo. Em muitos momentos, esta resposta não só foi legítima, como necessária. O problema é que o temporário passou a ser permanente e o excecional passou a ser a norma.

Em 2026, o contexto internacional será menos tolerante. O crescimento global será estruturalmente menor, a concorrência económica mais agressiva e a tolerância do mercado a modelos ineficientes significativamente reduzida. A margem de erro — ou de sucessivos adiamentos — foi decisivamente reduzida.

Esta reflexão torna-se ainda mais relevante quando analisada à escala ibérica. Portugal não enfrenta estes desafios de forma isolada. Espanha, com uma economia maior, maior diversificação produtiva e maior peso político europeu, enfrenta dilemas semelhantes, mas seguiu uma trajetória diferente. A comparação não visa o consolo ou a queixa, mas sim compreender como as decisões políticas e institucionais produzem resultados diferentes dentro do mesmo quadro europeu.

O principal risco que 2026 apresenta não é o colapso. É algo mais subtil e, precisamente por isso, mais perigoso: a normalização da estagnação ou, no caso de outros países, a ilusão de dinamismo assente em bases frágeis.

I — O mundo em 2026: multipolaridade sem ordem

A globalização que moldou as últimas décadas terminou sem uma declaração formal da sua morte. Os seus princípios essenciais deixaram de funcionar.

O mundo de 2026 será inequivocamente multipolar, mas profundamente desordenado. Os principais centros de poder coexistem, competem e, cada vez mais, confrontam-se sem uma estrutura eficaz de governação global. O comércio internacional persiste, mas já não é impulsionado principalmente pela eficiência económica; passou a ser moldado pela lógica da segurança.

As consequências económicas são claras: cadeias de valor mais curtas e redundantes, custos mais elevados, menor potencial de crescimento e inflação estruturalmente mais persistente. O mundo de 2026 será menos próspero não por falta de tecnologia ou de capital, mas devido à excessiva fragmentação.

Esta estrutura global reduz drasticamente a margem de manobra das pequenas e médias economias. O mundo de 2026 penaliza as ineficiências, pune o atraso nas reformas e premeia apenas os países capazes de se adaptar rapidamente.

II — A Europa em 2026: ambição discursiva, impotência prática

A União Europeia entra em 2026 politicamente desgastada e economicamente vulnerável. O discurso oficial continua a enfatizar a transição verde, a digitalização, a autonomia estratégica e a competitividade global. A realidade, porém, é menos favorável.

A resposta europeia às crises recentes baseou-se quase exclusivamente no aumento da despesa pública e na flexibilidade orçamental. O resultado é um modelo de mitigação permanente, e não de transformação.

A Europa continua a falar de autonomia estratégica, mas hesita sempre que essa autonomia implica custos políticos internos. O resultado é uma União Europeia cada vez mais lenta a tomar decisões e menos capaz de agir de forma coordenada.

III — Portugal em 2026: a estagnação como uma escolha confortável

Portugal entra em 2026 sem sinais evidentes de crise, mas também sem uma estratégia de desenvolvimento clara. Este modelo não conduz ao colapso. Conduz à complacência.

A ausência de uma crise aguda alimenta a ilusão de que o país está no bom caminho, quando na realidade se encontra numa trajetória de convergência lenta ou inexistente.

IV — Espanha em 2026: crescimento aparente, fragilidade estrutural

Na frente política, os governos são movidos pela evitação de conflitos, e não pela resolução de problemas. A reforma tornou-se sinónimo de risco eleitoral, e o risco eleitoral tornou-se politicamente inaceitável.

À primeira vista, a Espanha entra em 2026 numa posição mais favorável. Esta perceção alimentou a narrativa de que o modelo espanhol serve como parâmetro implícito. Uma análise mais rigorosa recomenda cautela.

O crescimento recente de Espanha depende sobretudo de factores cíclicos e extensivos. Estes factores explicam o dinamismo de curto prazo, mas pouco dizem sobre a sustentabilidade estrutural do modelo.

A principal fragilidade da economia espanhola reside na sua excessiva dependência do Estado como motor do crescimento. O crescimento observado não resulta de um aumento sólido da produtividade, mas sim da mobilização de recursos públicos.

Espanha está a crescer, mas está a crescer sustentada por medidas de estímulo público difíceis de manter; está a criar emprego, mas sem resolver completamente os problemas de produtividade. O modelo oferece dinamismo a curto prazo, mas levanta sérias dúvidas sobre a sua solidez estrutural.

V — O que 2026 exige: decisões inevitáveis

O ano de 2026 exigirá decisões que foram sistematicamente adiadas.

Nada disto é ideologicamente radical. É tudo politicamente difícil. Mas o custo da inacção será superior ao custo de enfrentar a resistência.

Conclusão — O tempo deixou de ser neutro

A história não penaliza os países por erros cometidos em circunstâncias difíceis. Penaliza aqueles que adiam as decisões até que a margem de escolha desapareça. Em 2026, o tempo deixará de ser neutro.

O futuro não é gerido com cautela excessiva ou com cálculos políticos de curto prazo. É construído com decisões oportunas. E esse tempo está a esgotar-se.

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