Estado frágil: um problema ibérico

Os desastres naturais e os acidentes recentes não são apenas tragédias humanas; são também espelhos que refletem as fragilidades acumuladas da ação pública.

Um bombeiro numa das áreas afetadas pela tempestade DANA.

Um bombeiro numa das áreas afetadas pela tempestade DANA.

Os recentes acontecimentos em Espanha e Portugal evidenciaram uma fragilidade estrutural que já não pode ser atribuída unicamente à força da natureza ou ao acaso trágico. A tempestade DANA, que devastou vastas áreas do leste e sul de Espanha, com consequências humanas e materiais devastadoras, os acidentes ferroviários que reabriram o debate sobre a segurança e a manutenção da rede, bem como as tempestades no centro de Portugal e as cheias dos rios Mondego, Tejo e Sado, revelam um problema mais profundo: um Estado cada vez mais reativo, menos estratégico e com uma capacidade de antecipação enfraquecida.

Os eventos climáticos extremos são uma realidade cada vez mais presente no contexto das alterações climáticas. No entanto, a magnitude dos danos depende não só da intensidade da chuva ou do vento, mas também da qualidade das infraestruturas, do planeamento do uso do solo e da preparação institucional. As urbanização em zonas sujeitas a inundações, os sistemas de drenagem inadequados e os diques e linhas férreas obsoletos não são produto de uma única tempestade, mas sim de anos de decisões tardias, investimentos adiados e prioridades mal definidas. Quando o governo age principalmente após o desastre, libertando fundos extraordinários e anunciando auditorias urgentes, transmite a impressão de que é sempre tarde demais.

Os acidentes ferroviários em Espanha e o trágico colapso do histórico elevador em Lisboa não são incidentes isolados, mas sintomas de uma erosão cumulativa na gestão de infraestruturas críticas. A falta de manutenção preventiva, a redução de pessoal técnico qualificado e a constante pressão orçamental conduzem, em última análise, a sistemas mais vulneráveis. Em vez de um compromisso sustentado com a modernização e de uma supervisão rigorosa, adoptam-se soluções paliativas que ganham tempo político, mas não resolvem o problema subjacente.

Esta fragilidade material é agravada pela fragilidade política. A qualidade dos decisores no sector público tornou-se um factor determinante. Frequentemente, a prioridade parece ser a popularidade imediata e a sobrevivência eleitoral, e não o desenvolvimento de uma estratégia nacional a longo prazo. O curto ciclo político favorece anúncios rápidos e medidas com impacto mediático, enquanto as reformas estruturais — aquelas cujos resultados só serão vistos daqui a dez ou vinte anos — são relegadas para segundo plano. O pensamento estratégico e o sentido de serviço público, entendido como a capacidade de priorizar o interesse geral em detrimento da conveniência partidária, estão a enfraquecer progressivamente.

A prática de nomear para cargos de alto nível indivíduos cuja principal credencial é o favoritismo político agrava esta situação. Quando a gestão de empresas públicas, organismos reguladores ou entidades técnicas recai sobre indivíduos que não possuem as qualificações e a experiência necessárias em gestão complexa, a capacidade institucional sofre. Este não é apenas um problema ético, mas também funcional: decisões mal informadas, falta de liderança, incapacidade de antecipar riscos e perda de conhecimento acumulado. Num contexto de crescente complexidade tecnológica e climática, a incompetência no topo tem efeitos multiplicadores.

Ao mesmo tempo, observa-se uma tendência para o aumento das despesas correntes, especialmente devido ao crescimento contínuo do número de funcionários públicos, sem uma estratégia clara de modernização e eficiência. O problema não reside na existência de um sector público extenso, mas sim na ausência de uma orientação transformadora. A expansão das estruturas administrativas sem investimentos proporcionais na digitalização, manutenção preditiva, resiliência climática e infraestruturas estratégicas conduz a um Estado mais pesado, mas não necessariamente mais eficaz. O verdadeiro reforço institucional exige investimentos estruturados: redes ferroviárias seguras e modernizadas, sistemas de drenagem adaptados ao novo clima, planeamento urbano baseado em dados científicos e corpos técnicos altamente qualificados.

Em última análise, os recentes desastres naturais e acidentes não são apenas tragédias humanas; são também reflexos das fragilidades acumuladas da atuação pública. Um Estado que prioriza a lealdade política em detrimento do mérito, a gestão da imagem em detrimento do planeamento estratégico e as despesas correntes em detrimento do investimento transformador torna-se progressivamente mais frágil. E quando a tempestade, o descarrilamento ou a inundação chegam, esta fragilidade deixa de ser abstrata: traduz-se em perda de vidas, prejuízos económicos e erosão da confiança pública. Fortalecer o Estado não significa simplesmente gastar mais, mas gastar melhor, seleccionar melhor e planear melhor. Significa recuperar um sentido de responsabilidade histórica, investir em conhecimentos técnicos especializados e reconhecer que a verdadeira política não se mede pelos títulos de amanhã, mas pela resiliência do país no espaço de uma geração.

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