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Chaves para entender o papel dos EUA na guerra do Irã

Se o modelo de atuação "Venezuela" tiver sucesso no Irã, os EUA poderiam dominar seu 10% de quota de mercado de exportação de crude mais os outros 25% que transitam pelo Estreito de Ormuz

Donald Trump recebe o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu

Possivelmente a ativação da guerra no Irã por parte de Israel-EUA estava marcada como um fato provável dentro das ansias de influência no devir da história de Trump e Netanyahu. Novamente, duas visões de mundo antagonistas, dois regimes e um líder que deveria ser eliminado por sua “maldade”. E não, não se trata de Netanyahu, mas de Jomeini.

Mas também é verdade que, analisando o passo dado em maior profundidade e o devir da situação bélica, não é totalmente arriscado avançar que não estão claras as consequências que isso pode chegar a provocar tanto sobre Israel como sobre os EUA.

Israel pretende acabar com a influência de seus inimigos históricos na região, mas vê como seu desdobramento de defesa militar não chega a contrapor todos os mísseis enviados para atacá-lo.

Por sua parte, EUA poderia ter contemplado a viabilidade do cenário que após essa ação militar o levaria a alcançar o objetivo de liderar e se fazer com o controle de facto do mercado mundial do petróleo, do qual já é um agente principal. Obviamente há mais derivadas económicas depois da ativação bélica que têm como beneficiários outras atividades económicas, como as empresas de armamento e defesa, mas propõe-se a seguir centrar a análise no âmbito energético.

EUA e o petróleo

E é que os EUA são o principal produtor de petróleo mundial, dominando quase a quarta parte do mercado e a muita distância de seus concorrentes aos que duplica praticamente esta quota (Arábia Saudita e Rússia). Curiosamente estes valores se trocam se se analisa o mercado de petróleo exportado, comercializado. Neste caso Arábia Saudita lidera as exportações com um 15%, seguida de Rússia com um 12% e os EUA que alcançam os 10%. O motivo desta perda de liderança exportadora deve-se precisamente a que é a economia com maior consumo de petróleo do mundo: consome um de cada cinco barris do mercado, ritmo apenas seguido pela China, com um 15% sobre o total do consumo mundial.

A guerra e a economia estadunidense

É precisamente este papel de economia intensiva no consumo deste recurso o que pode levar a condicionar a duração da guerra, já que a os EUA vêm mal que os preços do crude se marquem no mercado internacional: instável e com tanta sensibilidade às tensões geopolíticas entre estados evidenciada na volatilidade e alta dos preços. Assinala-se que um incremento de 10 dólares no preço pode chegar a ter um impacto de 0,2 pontos de alta no IPC estadunidense. Assim, o contágio do comportamento dos preços do mercado global à economia doméstica estadunidense é imediato, o que provoca a alta da inflação e contradiz a vontade de Trump de que a Reserva Federal baixe os tipos de interesse.

Note-se pois a situação dificilmente compreensível para o cidadão médio estadunidense: apesar de dispor em seu território do principal recurso energético para sua economia, vê como a instabilidade internacional provocada por seu próprio governo tensiona os preços para cima e reduz, não só seu poder aquisitivo ligado a este recurso, mas também diminui a renda disponível para destiná-la a outros bens e serviços, esfriando o crescimento final do PIB estadunidense.

Por tudo isso, parece claro que o America First pode condicionar as ânsias ególatras e estratégicas do presidente estadunidense.

Antes Venezuela e agora Irã

De qualquer forma, não se deve perder de vista o doce que os assessores de Trump lhe colocaram diante dos olhos: se o modelo de atuação “Venezuela” (eliminação ou captura do governante e substituição por outro dirigente “colaborador”) tiver sucesso no Irã, os EUA poderiam passar a dominar seus 10% de quota de mercado de exportação de crude mais o outro 25% que transita pelo Estreito de Ormuz: ao todo um 35% do petróleo comercializado a nível mundial, ao que se somaria o potencial já ativado de exploração das reservas do país com maiores reservas provadas de petróleo (17%) do mundo: a Venezuela, claro.

O estreito de Ormuz: uma panela de pressão

O bloqueio do estreito de Ormuz representa um golpe duro para a exportação de crude dos países da região além do próprio Irã, como Kuweit, Catar e Bahrein que têm essa via marítima como a única para sua exportação. Arábia Saudita lidera o mercado de exportação na região com um 31%, seguido do Iraque (18%), Emirados Árabes Unidos (16%) e pelo próprio Irã (12%).

Se colocamos o foco do lado da demanda, vemos como são vários os países afetados, os mais importantes (80%), os da região da Ásia e Pacífico. Assim China é o destino para cerca de 40% do fluxo de combustíveis fósseis que passam por Ormuz, o que representa praticamente a metade de suas importações marítimas e 35% do fornecimento energético. De facto 90% do petróleo iraniano tem como destino China, o que cobre cerca de 12% da demanda do gigante asiático. Índia e Japão são os seguintes mais afetados, especialmente o país nipónico, já que três de cada quatro barris que importa têm que atravessar Ormuz.

De qualquer forma, 65% do transporte total que atravessa o Estreito de Ormuz não é de combustíveis fósseis, mas falamos de compostos para a indústria farmacêutica, componentes e chips fabricados na Ásia para a indústria ocidental, fertilizantes elaborados no Oriente Médio e cereais, muito necessários, por outro lado, para a população iraniana.

Por tudo isso, bloquear Ormuz eleva a temperatura da economia mundial, tanto através da alta do preço dos combustíveis fósseis como da possível ruptura da cadeia de fornecimento dos setores primários e secundários dos países ocidentais. Adicionalmente a instabilidade na região encarece ainda mais os fretes das mercadorias chamadas a atravessar este ponto geoestratégico chave.

Chaves geoestratégicas da guerra do Irã

São várias as chaves geoestratégicas que entram em jogo para poder adivinhar a duração que terá esta guerra do Irã.

  • Uma é o “efeito contágio” que está ocorrendo com o Irã com seus países vizinhos. Não quer ser o único afetado deste conflito militar. Do mesmo modo que Israel está atacando infraestruturas chave de extração, refinamento e transporte de petróleo iraniano, este país replica o mesmo esquema afetando infraestruturas chave dos países da região. Por isso pode-se confirmar que se trata de um conflito com efeitos estruturais na cadeia de fornecimento mundial. O ataque estadunidense à Ilha de Jark para tentar acabar com a guerra, possivelmente leve a uma escalada nos ataques a infraestruturas energéticas e a interesses estadunidenses, como resposta do Irã ao restante dos países da região. Quando a guerra acabar, as economias estão assumindo que não vão poder satisfazer sua demanda ao mesmo ritmo que até agora. É precisamente esse elemento o que impulsiona a alta do preço do petróleo: a incerteza do dia seguinte e a possível minorização real do fornecimento.
  • Outro ponto importante é ver como se mantém o pulso estadunidense de liderança e persistência na guerra. Possivelmente espera-se uma reação da China, embora mantenha uma estratégia de não confrontação direta, o que marcará um ponto importante se ver afetada sua soberania energética quanto ao fornecimento. Por outro lado a tensão interna do mercado interior estadunidense e o impacto que tenha na vida do estadunidense médio pode acabar precipitando a tentativa de finalização do conflito, se é que se consegue.
  • A terceira chave é ver como Trump já devolveu ao tabuleiro internacional, do qual nunca se foi, a Rússia. O governante estadunidense levantou as sanções a um dos principais fornecedores de petróleo mundial, não para a União Europeia. Quem vê como após constatar como um erro ter confiado na Rússia como principal fornecedor energético de combustíveis fósseis, repete o mesmo esquema, desta vez com os EUA.

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