López Madrid pede permissão a Donald Trump para reabrir a planta da Ferroglobe na Venezuela
Ferroglobe solicitou autorização ao Governo dos EUA para iniciar as conversas com o regime venezuelano com o objetivo de reativar a fábrica de Puerto Ordaz, que estava parada desde o ano de 2017 devido à instabilidade política e econômica no país
Javier López Madrid, presidente da Ferroglobe e genro de Juan Miguel Villar Mir
Ferroglobe ativa a maquinaria para seu retorno à Venezuela. A empresa presidida por Javier López Madrid reconheceu perante os investidores que iniciou os trâmites para reativar sua planta em Puerto Ordaz (localizada no leste do país) após nove anos de paralisação.
“No final de junho, solicitamos uma permissão ao Governo dos Estados Unidos para iniciar as comunicações com o Governo da Venezuela e esperamos receber uma decisão antes do final do terceiro trimestre”, explicou o CEO da multinacional, Marco Levi, durante a última conference call.
A matriz da Ferroatlântica deu este passo após a queda do ex-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que foi capturado pela Administração de Controle de Drogas (DEA) dos Estados Unidos em Fuerte Tiuna no início de janeiro. Com Delcy Rodríguez instalada desde então no Palácio de Miraflores, o mecanismo de sanções dos Estados Unidos a empresas que operam na Venezuela foi relaxado, mas não eliminado.
Por isso, Ferroglobe optou por um diálogo prévio com a Administração Trump com o objetivo de evitar possíveis represálias. E é que os Estados Unidos ocupam um papel chave para a Ferroglobe não só por ser seu principal mercado (contribuiu com 464 dos 1.159 milhões de euros que a empresa faturou em vendas globais ao longo de 2025), mas também por abrigar meia dúzia de centros produtivos da companhia.
Trata-se das fábricas de Virginia, Kentucky, Nova York, Alabama, Ohio e Alabama (esta última permanece sem atividade desde 2023). “A oportunidade na Venezuela nos permite otimizar nossa presença industrial, pois possibilita que as plantas dos EUA se concentrem em produzir materiais críticos de maior valor agregado para satisfazer a demanda nacional”, ressaltou Marco Levi durante a conference call com analistas dos principais bancos de investimento.
O plano da Ferroglobe
Durante sua intervenção, o executivo italiano esboçou as “quatro áreas chave que impulsionarão a criação de valor” para os acionistas da Ferroglobe. A empresa, que tem o Grupo Villar Mir como maior acionista (controla 36,1% das ações), aposta, entre outras coisas, no crescimento do seu negócio de “materiais críticos“, na redução da “sua estrutura global de custos mediante a otimização” da sua “pegada industrial“. Neste último ponto, ganham especial relevância as “medidas de redução de custos” que se traduziram em um processo de regulação temporária de emprego (ERTE) para seus 113 trabalhadores da fábrica de silício de Sabón (Arteixo).
“Em terceiro lugar”, prossegue Levi, está “o planejamento do reinício de nossas operações de baixo custo na Venezuela, aproveitando um acesso vantajoso ao mercado dos Estados Unidos. E, em quarto lugar, o fortalecimento do nosso negócio principal mediante a proteção comercial, ao mesmo tempo em que aproveitamos o processo de relocalização industrial (onshoring) e a reorganização das cadeias de suprimentos que está ocorrendo nos Estados Unidos e na Europa“.
O roteiro com Puerto Ordaz
Dessa forma, Ferroglobe vê na planta de Puerto Ordaz uma porta para canalizar atividades menos rentáveis com o objetivo de liberar carga de trabalho de outros centros produtivos para que possam se concentrar em produtos de maior valor agregado.
“Com uma capacidade de produção de 120.000 toneladas na Venezuela, dispomos de uma importante oportunidade de baixo custo para aumentar os volumes destinados ao mercado dos Estados Unidos e ampliar nossa flexibilidade operacional”, explicou Marco Levi. A fábrica de Puerto Ordaz, que está fechada desde setembro de 2017, conta com quatro fornos com capacidade para fabricar ligas de manganês, silício metálico e ferrosilício, o que deixaria margem para que outras fábricas se expandissem para “um portfólio mais amplo de materiais críticos estratégicos“.
Entre eles, a Ferroglobe cita o “magnésio, antimônio, prata, gálio e ferroligas baseadas em molibdênio, vanádio e cromo“, que, além disso, poderiam começar a ser produzidos sem necessidade de construir novas plantas. “Ao contrário de muitos projetos de materiais críticos que requerem grandes investimentos em novas plantas, a maioria de nossas oportunidades pode ser aproveitada utilizando a infraestrutura de fornos já existente”, destacou o CEO da empresa.
Nesse sentido, o executivo menciona como casos de sucesso “a produção em escala industrial de ferromolibdênio” e de magnésio. Por meio dessas iniciativas, Levi considera que a Ferroglobe conseguiria avançar diante do “problema de capacidade de processamento” que, em sua opinião, afeta o “Ocidente“.
“Nosso objetivo é que cada ativo contribua para criar valor, seja mediante a produção de materiais tradicionais ou por meio de novos usos industriais que aproveitem a infraestrutura existente”, ressaltou Marco Levi, que demonstrou sua sintonia com a Administração dos Estados Unidos. Questionado sobre sua aposta nos chamados materiais críticos, o CEO da Ferroglobe afirmou que a empresa vem “colaborando há dois anos com o Departamento de Energia” e que, além disso, está “trabalhando com o Departamento de Defesa desde fevereiro deste ano, mantendo uma comunicação constante”. Tudo isso com o objetivo de concretizar suas necessidades de investimento para garantir o fornecimento desses materiais.
Entre Washington e Bruxelas
Marco Levi fez essas declarações em uma conference call na qual informou um aumento anual de 4,7% nas vendas do grupo, que alcançaram 630,6 milhões de euros entre janeiro e junho, assim como um lucro líquido de 46,3 milhões, contrastando com as perdas de 66,8 milhões registradas no mesmo período de 2025. Sua sintonia com as autoridades americanas foi reforçada pelas medidas antidumping que Donald Trump aplicou, ao contrário da Comissão Europeia, que a empresa culpa por permitir a entrada de importações low cost provenientes de países como China e Angola.
De fato, a empresa justificou a adoção do seu ERTE de 17 meses na planta de Sabón justamente pelo impacto que as compras provenientes desses países estão tendo em segmentos como o do silício metálico, o core business da sua fábrica em Galiza.