As duas faces do setor agroalimentar da UE: do déficit crônico de Portugal ao músculo da Espanha
O "Relatório Socioeconómico Anual 2024" do Eixo Atlântico analisa, entre outros aspectos, a balança comercial e a taxa de autoabastecimento da UE e aponta que, embora a situação geral em termos de comércio exterior seja bastante "folgada", "existem diferenças consideráveis entre os seus Estados membros"
Várias azeitonas durante o início da campanha de colheita, a 6 de novembro de 2025, em Quiroga, Lugo, Galiza (Espanha) – Carlos Castro / Europa Press
Cara e cruz do sector agroalimentar da UE na península ibérica. Enquanto Portugal apresenta um “défice crónico”, que piorou desde o início do milénio tanto para produtos agrícolas não elaborados, como os elaborados ou mesmo para os pescados, a Espanha estabelece-se como uma das principais potências exportadoras da UE, apenas superada pelos Países Baixos.
Isso é o que revela o Relatório Socioeconómico Anual 2024 do Eixo Atlântico sobre o fornecimento e segurança dos alimentos, elaborado por Fernando González Laxe, catedrático emérito de Economia Aplicada da Universidade da Corunha e ex-presidente da Xunta, e por Arlindo Cunha, catedrático de Economia da Universidade Católica do Porto e ex-ministro da Agricultura nos governos de Cavaco Silva e das Cidades no Executivo de Durão Barroso.
Dois dos aspectos que descreve o estudo são a balança comercial e a taxa de autoabastecimento da União Europeia. De forma geral, a UE é um dos maiores importadores e exportadores de produtos agroalimentares, alternando a liderança mundial com os Estados Unidos, conforme detalha o relatório. “Apresenta sistematicamente uma balança comercial positiva (…) Em 2024, a balança comercial agroalimentar ultrapassou os 63.000 milhões de euros, resultado de 235.000 milhões de euros em exportações e 172.000 milhões de euros em importações”.
Embora a situação geral da UE seja bastante “confortável” em termos de comércio exterior agroalimentar, “existem diferenças consideráveis entre os seus Estados membros”. Os maiores exportadores de produtos agroalimentares, pesca e aquicultura, são, em ordem descendente: Países Baixos, Espanha, Polónia, França, Bélgica e Irlanda. Por seu lado, o ranking dos mais deficitários seria liderado pela Alemanha, seguida de Suécia, Portugal, Finlândia, Roménia, República Checa e Eslováquia.
Autoabastecimento na Espanha e Portugal
No caso da Espanha, o relatório destaca a “situação especial” do azeite de oliva, por ser o principal exportador mundial, assim como o bom momento do setor cárnico, o de frutas e legumes e o de produtos pesqueiros. Os pontos fracos encontram-se no setor de cereais e oleaginosas, no qual apresenta um certo déficit.

A situação é diferente em Portugal, com um défice crónico que se agravou desde o início da década de 2000. Um dos âmbitos onde apresenta grande dependência é na produção animal —especialmente de leite de vaca, carne de porco, carne bovina, aves e ovos—, visto que depende “consideravelmente” da importação de matérias-primas para a produção de rações compostas.
Em termos setoriais, regista taxas de autosuficiência superiores a 100% em importantes setores de exportação como o vinho, o azeite de oliva, as frutas e legumes, assim como o arroz, e “um nível bastante confortável em setores como os produtos lácteos e a carne em conjunto, apesar da mencionada dependência destes setores de matérias-primas importadas que se integram como bens intermédios na sua produção”.
Por sua vez, os pontos mais fracos de autosuficiência estão no caso dos cereais (18% em geral e menos de 5% em trigo mole), na carne bovina (51%), nas leguminosas essenciais na nossa dieta, como feijões e grão-de-bico (12,5%), e até mesmo vários tipos de frutas, especialmente os citrinos (34%).
O relatório do Eixo destaca “a enorme importância do comércio agroalimentar entre ambos os países”. “A Espanha é o principal destino das exportações portuguesas de produtos agroalimentares e, ao mesmo tempo, a principal origem das suas importações”.