Ferroglobe acusa Bruxelas de desproteger o negócio chave de Sabón
O diretor executivo da Ferroglobe, Marco Levi, defende que "o problema é que a Europa não está unida como os EUA" e avança com mais lentidão na hora de impor tarifas às importações de silício metálico da China ou Angola
Marco Levi, CEO da Ferroglobe
Ferroglobe encerrou em 2025 uma série de três anos consecutivos em zona de lucros. A companhia dirigida por Javier López Madrid anunciou na terça-feira que fechou o exercício com perdas de valor de 170,7 milhões de dólares (cerca de 143,4 milhões de euros ao câmbio atual) após registrar um corte de 18,8% em seu faturamento que se situou nos 1.121,9 milhões de euros.
A queda foi mais acentuada no segmento do silício metálico, área chave para instalações como a de Sabón. O recuo foi de 40,8% nesse caso, reduzindo assim sua contribuição para os resultados da companhia de 613,1 para 362,9 milhões de euros. Precisamente sobre esta área focou Marco Levi, diretor executivo de Ferroglobe, durante a conference call com os analistas dos bancos de investimento.
Durante sua intervenção, o executivo assegurou que “entre 70% e 80%” do negócio da matriz de Ferroatlántica “está protegido” contra as importações low cost de terceiros países. Os 20% restantes que não contam com este escudo particular “são basicamente o silício metálico na Europa“.
“Não surpreende que Estados Unidos, além do encerramento governamental, seja muito favorável à proteção de minerais críticos e estratégicos. Por isso estamos implementando medidas antidumping e antievasão, e as coisas estão avançando rapidamente. Também é certo que a situação está mudando na Europa, mas talvez não com a velocidade que gostaríamos”, adiantava Marco Levi.
Cara e coroa com os direitos aduaneiros
O CEO de Ferroglobe contrapõe assim a situação de um e outro lado do Atlântico. A Comissão Internacional de Comércio dos Estados Unidos impôs medidas antidumping às importações de ferrosilício de Brasil, Cazaquistão, Malásia e Rússia e a companhia espera medidas similares com o silício metálico após a decisão preliminar de setembro para adotar “medidas fortes” contra Angola, Austrália, Laos, Noruega e Tailândia, com tarifas que vão desde 21% do país europeu até 33% para o Laos.
“Nossas perspectivas para o silício metálico continuam sendo mais moderadas devido à sua exclusão das salvaguardas da UE e às contínuas e agressivas importações provenientes de China e, cada vez mais, de Angola. Nos Estados Unidos espera-se que o mercado do silício cresça moderadamente”, destacou o executivo.
“O problema é que a Europa não está unida como os Estados Unidos. Portanto, existe uma troca contínua de responsabilidades entre o governo central, a Comissão Europeia e os estados membros”, reconhece Levi, que percebe uma divergência de critérios entre os diferentes governos. “Quando falo com políticos na Espanha, Noruega e França, eles estão muito conscientes do que devemos fazer: uma combinação de proteção, preços de energia para a indústria, e assegurar que, ao pensar em produtos, penseм em cadeias de fornecimento e não em produtos individuais”, revelou.
Novo cenário na Venezuela
Em paralelo, Marco Levi também revisou o novo cenário que se abre para Ferroglobe num país como Venezuela. A companhia suspendeu em maio de 2017 a atividade de sua planta de Puerto Ordaz, mas agora, após a queda de Nicolás Maduro, abre a porta para um possível reinício.
“Estamos estudando ativamente oportunidades a longo prazo associadas com nossas operações inativas na Venezuela. Esta planta inclui três grandes fornos de ferrosilício e um forno de liga de manganês, originalmente desenhado para produzir silício metálico que pode ser reconvertido”, apontou Levi.
“Embora seja prematuro determinar o momento e o estado da infraestrutura e das operações, a base de ativos representa uma oportunidade potencial para o futuro. Dada a proximidade da Venezuela ao mercado estadunidense, esta oportunidade poderia adquirir relevância estratégica com o tempo”, expressou.