O presidente da Navantia abre a porta à entrada de capital privado

Ricardo Domínguez acredita que, embora o grupo de estaleiros deva continuar a ser público, no futuro deveria abrir-se à entrada de sócios, e põe como exemplo a francesa Naval Group

O presidente da Navantia, Ricardo Domínguez, primeiro pela esquerda, acompanhado pelo ministro da Indústria, Jordi Hereu, numa visita aos estaleiros de Ferrol- Raúl Lomba – Europa Press

O presidente da Navantia, Ricardo Domínguez, abriu a porta à entrada de capital privado no grupo de estaleiros públicos num futuro. O executivo andaluz defende que deve continuar nas mãos públicas, mas que “deveria chegar” a entrada de parte do capital privado, algo que, “terá que vir pela sua própria maturidade”.

Ricardo Domínguez fez esta reflexão no decorrer do encontro Deusto Business Alumni, onde sublinhou que a Navantia tenta ser realmente “um partner relevante no âmbito global”, mas sobretudo no âmbito europeu.

Questionado sobre se há planos para introduzir capital privado na Navantia, após apontar previamente que ia ser “politicamente correto”, mostrou a sua convicção de que isso “deveria chegar”.

“Free float da companhia”

“Somos 100% público e acredito que deve continuar a ser uma empresa pública, mas creio que, assim como temos joint venture e alianças de capital privado, no futuro – e possivelmente eu também não verei –, sim deveria, poderia haver uma parte de saída, de free float da companhia. Acho que seria bom porque haverá um crescimento ou talvez, se fizermos joint venture com outras companhias, que haja uma forma de colaboração ou de intercâmbio desse ponto de vista de capital”, acrescentou.

Segundo indicou, acredita que é algo que vai “ter que vir pela sua própria maturidade”, e acrescentou que a Navantia está adquirindo um volume de negócios, tamanho, capital e perspectiva a longo prazo “que sim, acredito que seria bom e com um desenvolvimento tecnológico”.

O exemplo francês

Após apontar, por exemplo, que o Naval Group é “muito francês, muito do governo francês”, mas tem “a sua parte privada importante”, acrescentou que a Navantia, “nessa maturidade que projetaria para o futuro, sim a veria nessa ordem”.

Na sua intervenção, sublinhou que o total de PEM (Programas especiais de modernização) aprovados para a Navantia são 5.405 milhões, que são “um ponto de inflexão”. “Mudou-nos a carteira de encomendas”, apontou.

Navantia e os planos europeus

O montante desses PEM representa aproximadamente 75% da carteira de encomendas de 2024 e prevêem um impacto no PIB de mais de 750 milhões anuais, além de gerar 12.000 empregos anuais.

Lembrou que na Navantia são cerca de 5.500 trabalhadores em Espanha e há um amplo tecido industrial que depende deles, com mais de 3.000 fornecedores, dos quais quase 75% são espanhóis e, desse percentual, 60% são PME. Segundo precisou, atualmente estão a construir cerca de 23 navios, dos quais 16 ou 17 são para a Armada Espanhola.

O presidente da companhia apontou que a Navantia é um “ecossistema muito potente” e são dinamizadores das zonas onde está presente – Galiza, Cádiz e Cartagena -.

Em relação ao País Basco, indicou que na fragata F110 que se constrói em Ferrol há 500 empresas envolvidas, somente 9% são bascas e apenas 4% do orçamento viria para o País Basco. “Há algo que temos que arranjar, não sei onde está a falha”, acrescentou Domínguez, que acredita que um ‘Industry Day’ no País Basco poderia “ajudar a essa aproximação”.

“Gargalo”

Por outro lado, Ricardo Domínguez indicou que os desafios para a Navantia com esse aumento de contratação são, entre outros, “levar muitos programas simultaneamente, ter capacidade tecnológica ou a integração da cadeia de fornecimento”. Também citou as datas de entrega ou o fato de que países como a Índia lhes peçam localizar uma parte da produção. No entanto, acredita que um dos grandes desafios e que constitui um dos “grandes gargalos” é o talento e a competência.

O talento é o que mais me preocupa. Nós na Baía de Cádiz, eu tenho preocupação no próximo ano ou no seguinte, se vamos ter capacidade para dar resposta a todos os programas que se juntam lá”, manifestou.

Além disso, destacou o compromisso da Navantia com o investimento, a partir de 2019-2020 com uma média de 100 milhões por ano, tudo para modernizar os estaleiros porque não podem ser “os estaleiros do passado” para serem competitivos.

Por outro lado, ressaltou a importância da colaboração e acrescentou que na Europa está-se tentando que as empresas se relacionem. A seu ver, é fundamental e será preciso “deixar pelos na garganta”.

“Tem que surgir realmente a colaboração naval europeia, sem que haja perdedores, tem que ser uma colaboração em que todos os atores que estivermos em cima do tabuleiro, realmente, deixem valor acrescentado em todos os países e de forma conjunta”, indicou.

Acordo com a Fincantieri

Nesse sentido, lembrou que a Navantia e o grupo italiano de construção naval Fincantieri vão criar este mês ou no próximo uma joint venture para tratar do projeto Corveta de Patrulha Europeia (EPC).

Por outro lado, questionado sobre o que poderia aportar a Navantia na luta contra o narcotráfico, indicou que é uma das suas ideias, impulsionar algum projeto, mas não lhes foi solicitado. “Não é o navio como tal, o navio poderíamos talvez pegar na mesma zodiac de alta velocidade que têm os narcos, e montá-la no sistema de veículo não tripulado e poder ser realmente um elemento importante de dissuasão”, acrescentou.

O setor da defesa

Por outro lado, Ricardo Domínguez aludiu à mudança de paradigma que está a ocorrer em torno da perceção sobre a defesa. A seu ver, passou-se de um ambiente de estabilidade relativa, onde há “tensões e competição” mas “não se chega ao conflito”, para uma situação de “competição prolongada”, com “mais conflitos por todo o planeta” e uma “instabilidade global agressiva e desinformação”. “Temos uma geopolítica agora mesmo bastante instável”, manifestou.

Ricardo Domínguez acrescentou que isso leva a necessitar “uma segurança e uma soberania estrutural própria”. O presidente da Navantia defendeu fazer uma Europa “segura e sólida estrategicamente” e insistiu que não se pode depender de “terceiros atores que estão realmente em um conflito contínuo”.

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