Ofensiva contra a Comissão Europeia no TJUE por declarar estratégica a mina de lítio a 25 quilómetros de Galiza
A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) e a organização ecologista ClientEarth processam a Comissão ao considerar que sua decisão “estabelece um precedente perigoso para a proteção ambiental, a participação pública e o Estado de direito na UE”
Imagem aérea dos terrenos nos quais se situa a Mina do Barroso
Novo revés para o macroprojeto de lítio no município luso de Boticas, a cerca de 25 quilômetros da fronteira com a Galiza, impulsionado pela mineradora Savanna Resources. Associações ecologistas e comunitárias apresentaram uma ação contra a Comissão Europeia no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) por conceder-lhe o status de “projeto estratégico”.
A Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) e a organização ecologista ClientEarth, que apresentaram a demanda no último dia 5 de fevereiro, sustentam que a “abordagem da Comissão estabelece um precedente perigoso para a proteção ambiental, a participação pública e o Estado de direito na UE”.
Os reclamantes denunciam a recusa do órgão Governamental da UE em reconsiderar a decisão de considerar estratégico o projeto sob o Regulamento de Matérias-Primas Críticas “apesar de provas detalhadas que demonstram que o projeto apresenta graves riscos ambientais, sociais e de segurança”.
Segundo argumentam, a Comissão não cumpriu com sua obrigação de avaliar a sustentabilidade do projeto “ignorando lacunas evidentes na avaliação dos impactos ambientais, incluindo os impactos sobre espécies protegidas e a segurança da infraestrutura planejada para o armazenamento de resíduos mineiros”. Neste sentido, consideram que contradiz o direito ambiental da UE bem como o compromisso assumido pela própria Comissão de obter as matérias-primas que necessita através de práticas de mineração sustentáveis.
A resposta da Comissão
As entidades sustentam que a Comissão alegou que suas principais preocupações – como a perda da biodiversidade ou a segurança dos resíduos – são competências nacionais e que seu papel seria limitado a validar o projeto como sustentável a nível da UE e “identificar erros manifestos” nas solicitações.
O único motivo que a Comissão reconhece para rejeitar o caráter estratégico do projeto é que “fosse manifestamente claro que não se implementasse de forma sustentável”. Esta abordagem, segundo apontam as demandantes, “ignora os requisitos destinados a proteger a natureza e a saúde humana, marginalizando as comunidades afetadas”. Na demanda, as associações solicitam que se anule a designação de estratégico do projeto.
“Vamos aos tribunais porque a decisão da Comissão mina princípios jurídicos fundamentais da UE. Classificar um projeto como ‘estratégico’ e de interesse público, enquanto se faz vista grossa diante de riscos bem documentados para a água, os ecossistemas, a saúde humana e os meios de vida locais, é simplesmente inaceitável. A transição energética deve basear-se no direito, na ciência e na justiça, não em atalhos políticos que transformam regiões rurais em zonas de sacrifício”, indicam as associações.
Percurso judicial
Não é a primeira vez que o projeto tenta ser travado judicialmente. Em setembro passado Savanna Resources informava que os tribunais lusos haviam rejeitado a demanda apresentada pela Junta de Covas do Barroso, localidade onde se situa a mina, contra a concessão concedida pelo Executivo português em 2016.
O Tribunal Administrativo e Tributário de Mirandela confirma a “validade e conformidade inequívocas” da concessão, embora a parte demandante tenha a opção de apelar ao Tribunal Administrativo Central.
Segundo adiantavam na ocasião, esse era o oitavo caso que concluía com um resultado positivo para a companhia. “Atualmente, restam quatro casos judiciais em curso em relação ao projeto. Nenhum deles afeta o progresso de Savannah com o Projeto. Em dois dos casos, os pareceres jurídicos indicam que, tal como os casos que foram rejeitados, carecem de fundamento”.
Apoio do Governo português
Em meados de janeiro o Executivo luso concedia uma subvenção de 110 milhões de euros ao projeto. Em particular, trata-se de uma ajuda, de caráter não reembolsável, que contou com o apoio do Marco Temporal de Crise e Transição da Comissão Europeia, que promove iniciativas que fomentem a implementação de energias renováveis, a descarbonização industrial e o impulso de setores estratégicos.
“A subvenção representa uma contribuição financeira muito significativa para a construção prevista do projeto e demonstra uma vez mais o apoio que recebe do Estado português, em reconhecimento ao seu status de ativo de importância nacional e europeia em uma nova indústria estratégica para o país e a União Europeia”, explicavam desde Savanna Resources.
Esta ajuda estaria dividida em dois blocos: o primeiro deles, que concentra aproximadamente 75% do capital (cerca de 82,25 milhões de euros), será destinado ao gasto do desenvolvimento inicial do projeto; os 25% restantes, mais de 27 milhões, estarão vinculados a “marcos de desempenho durante a fase operacional”.
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