Cara e cruz dos rivais online da Inditex: do declínio da Asos e da Boohoo ao ‘boom’ da Temu e Shein graças ao TikTok.

Inditex encerrou o último exercício com vendas no seu canal online que superaram os 10.160 milhões, representando 26,31% do total. Apesar de a multinacional não ter alcançado o objetivo estabelecido há dois anos de ultrapassar 30% em vendas online em 2024, isso ainda representou um forte aumento, pois essa parte do negócio cresceu 12% em relação a 2023. A companhia começou a operar no setor de ecommerce em 2010 após o lançamento da loja online de sua marca principal, Zara. Desde então, enfrentou muitos concorrentes neste modelo de negócios, como Asos, Bohoo, ou as plataformas chinesas Shein e Temu, que atualmente vivem cenários muito diferentes.
O relatório O futuro do e-commerce na indústria da moda, elaborado pela Google e Deloitte e publicado em junho passado, indica que a indústria da moda cresceu 16% nos últimos cinco anos. A análise antecipa um “novo salto qualitativo e quantitativo” do setor para os próximos cinco anos. “Espera-se que as receitas online na região EMEA (Europa, Oriente Médio e África) atinjam 233.000 milhões de dólares, com uma taxa de crescimento médio anual de 9,8%, muito acima do crescimento previsto para o canal físico”, explicam.
Para 2030, o relatório estima que a quota do canal online se situe em torno de 30% do total do setor da moda com países como Polônia, Itália e Reino Unido liderando essa penetração online. Por outro lado, o relatório coloca Turquia, Itália e Espanha como os mercados “com maior crescimento online, cada um com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 12%”.
Os casos de Asos e Bohoo
Esses dados evidenciam a mudança de tendência nos hábitos de consumo que impulsionou o negócio, não apenas de Inditex, mas também de outros atores como Asos, um dos pioneiros na venda online de moda fundada em 2000 e com sede no Reino Unido. A companhia, que desde a pandemia viu suas vendas serem reduzidas, fechou 2024 com uma faturação de 2.905 milhões de libras (cerca de 3.457 milhões de euros), o que representa uma queda de 18% em relação ao ano anterior, e aumentou suas perdas em 27,8%, para 379,3 milhões de libras, cerca de 478 milhões de euros.
Conforme avança Expansão, as ações da companhia valem atualmente uma vigésima parte do que valiam em 2021. No decorrer deste ano, seus títulos experimentaram uma queda de 30% e está prestes a ser expulsa do FTSE 250, índice que agrupa as 250 empresas de maior capitalização na bolsa de Londres.
De acordo com essa informação, a companhia teria perdido em 2024, 20% dos clientes que tinha em 2021 e as vendas estariam em torno de 66% das registradas naquele ano.
Outro vendedor online de moda que também viu seu negócio diminuir é Bohoo. O grupo britânico, agora conhecido como Debenhams Group, aumentou seu negócio em 41% no ano da pandemia, ultrapassando 1.740 milhões de libras, cerca de 2.013 milhões de euros. No último exercício, a companhia reduziu suas vendas quase 18% até 1.461 milhões de libras, cerca de 1.698 milhões de euros, e duplicou suas perdas até 264 milhões de libras (305 milhões de euros).
Segundo avança Moda.es, a companhia – que está imersa em um plano de reestruturação desde o final do ano passado – planeja a venda da sua marca PrettyLittleThing além da reforma de seu centro de distribuição em Burnley. Com esse plano de reorganização do negócio, também foi feita uma redução de 30% da equipe, o que levou a uma economia anual de 50 milhões de libras, quase 60 milhões de euros.
O modelo ‘low cost’ de Temu e Shein
Situação distinta vivem outros dois rivais da Inditex: Temu e Shein. Com uma estratégia muito marcada nas redes sociais, especialmente no Tiktok, ambas as marcas disputam a liderança no fast fashion. O ano de 2020 foi um ano de especial crescimento para os de Cris Xu. Embora, por não serem listados na bolsa, não se conheçam exatamente os dados de faturamento, Financial Times estimou o crescimento de seu negócio nesse ano em 250%, baseado nas cifras oferecidas em uma apresentação a potenciais investidores.
As restrições de mobilidade após o surto da pandemia impulsionaram um modelo de negócio popular por sua política de preços reduzidos. Uma das vantagens da Shein foi sua capacidade de crescimento no TikTok, a plataforma de ‘vídeos curtos’ que é um sucesso entre a Geração Z.
O gigante chinês foi um dos precursores do conceito haul nas redes sociais, vídeos nos quais usuários de todo o mundo viralizam conteúdo mostrando roupas e outros produtos. Shein possui um programa de afiliados, que permite ganhar comissões recomendando produtos através de códigos ou links únicos que os usuários compartilham em suas postagens nas redes.
Apesar de sua importante presença no TikTok, especialmente notável foi o crescimento nesta plataforma de Zara. Em dois anos, o perfil da marca estrela da Inditex passou de ‘sorpassar’ o gigante chinês a ultrapassá-lo por uma vantagem de três milhões de usuários.
Conforme informou recentemente Financial Times, a multinacional estaria agora analisando entrar na bolsa de Hong Kong, após descartar os EUA e o Reino Unido, com uma avaliação de cerca de 60.000 milhões de euros.
Shein encontrou um forte competidor: Temu. A plataforma chegou ao mercado europeu em 2023. A estratégia é praticamente idêntica à da Shein: muitos produtos a preços reduzidos, um sistema de recompensas, um amplo catálogo que vai além da moda e bonificações e uma forte presença nas redes sociais. Temu, cujo app foi um dos mais baixados em 2024, também conta com um programa de afiliados que segue a mesma dinâmica que o da Shein.
Temu é propriedade do grupo PDD Holdings, que registrou durante os primeiros seis meses um total de 199.657 milhões de yuans, cerca de 23.812 milhões, o que representa um crescimento de 8,6% em relação ao ano anterior.
O crescimento de seu modelo de negócio não foi isento de críticas. Além das várias acusações sobre as condições laborais em sua rede de fornecedores, que ambas as companhias têm negado várias vezes, diferentes organizações acusaram-nas de usar práticas de publicidade enganosa ou de implementação de estratégias que induzem a compras impulsivas.