Amancio Ortega converte Luxemburgo no trampolim das suas grandes investimentos logísticos, de PD Ports a Qube
Pontegadea investe nas suas duas maiores participadas no setor, o grupo britânico PD Ports e, agora, a australiana Qube através de uma das suas novas filiais no território europeu, de onde centraliza a maioria das suas operações fora da Espanha e Portugal
Ilustração com Amancio Ortega e os edifícios Adelphi Building (Londres), The Post Building (Londres) e Royal Bank (Toronto), vários dos mais caros da sua carteira imobiliária. Pablo Ares Heres
Luxemburgo ganha peso como centro nevrálgico das grandes operações de Pontegadea, o family office de Amancio Ortega, que não ocorrem em solo espanhol ou português. A última, relacionada com um investimento no setor logístico, levará o grupo pilotado por Roberto Cibeira até à Austrália. Ali está o gigante Qube, que acabou de aprovar uma oferta vinculante para ser comprado por um consórcio liderado pelo fundo Macquarie, como principal acionista, mas que também inclui outros parceiros, sendo os segundos mais relevantes o holding do fundador da Zara e Unisuper. A companhia galega articulou esta operação através da filial Pontegadea Shareholdings Luxembourg, a mesma com a qual controla 49% da companhia britânica PD Ports, outra das suas grandes apostas no setor.
Fontes do grupo galego — que reinveste em ativos imobiliários, bem como em empresas energéticas, de telecomunicações e do setor logístico os bilionários dividendos que, anualmente, recebe de Inditex — indicam que o fato de tanto o investimento em PD Ports quanto o futuro em Qube terem sido realizados a partir desta filial luxemburguesa se deve, além de serem grandes desembolsos no setor logístico, ao processo de reordenação que o grupo abordou nos últimos dois exercícios nos quais Luxemburgo se tornou a grande cabeça de seus ativos fora de Espanha e Portugal. Desde 2024, a companhia decidiu centralizar a gestão de muitos dos ativos de Pontegadea Investimentos, uma das suas grandes sociedades holding, no estado europeu.
A operação da Austrália
No passado janeiro, Pontegadea Shareholdings Luxembourg, além de Macquarie e o restante dos sócios do consórcio, constituíram na Austrália o veículo Rubik Australia Pty Limited através do qual exerceram a oferta vinculante sobre Qube que ainda tem que superar vários marcos regulatórios, pelo que a sua execução poderia atrasar até, pelo menos, junho deste ano, quando se votará em assembleia geral de acionistas.
O acordo vinculante, conhecido esta segunda-feira, passa pelo compromisso do consórcio oferente de adquirir o operador logístico pagando 5,20 dólares australianos por ação, um preço que valorizaria 100% da companhia em cerca de 7.000 milhões de euros. É provável que Qube mude de mãos sem ter que passar por uma opa, mas mediante um acordo particular entre acionistas.
Restam ainda vários meses e incógnitas para que se materialize a transferência do grupo, que cotiza na bolsa australiana. Até o momento, por exemplo, ainda não foi indicado que percentual possui no consórcio oferente os diferentes sócios. O único que foi comunicado é que Macquarie liderará a operação e será o sócio majoritário e que Pontegadea será acionista significativo junto a UniSuper. Este fundo já está presente no capital da Qube e transferirá sua atual participação direta de 15,07% na companhia para um valor equivalente na estrutura do consórcio adquiriente.
O precedente de PD Ports
Embora, por agora, não se saiba a participação que Pontegadea terá na futura Qube, tudo indica que o investimento poderia superar o que fez na que, até agora, era a sua grande aposta numa companhia logística, a PD Ports. Esta operação foi anunciada em julho de 2025, quando o fundo canadense Brookfield Asset Management comunicou que havia sido acordada a venda de 49% da companhia britânica de gestão portuária e logística a Pontegadea por um montante que não foi revelado (neste caso, não se trata de uma cotada, como na Austrália).
Segundo os dados consultados por Economia Digital Galiza no equivalente britânico ao Registro Comercial, enquanto a filial Brookfield Infrastructure UK Holdings, sediada nas Ilhas Cayman, é a sócia majoritária da companhia, com uma participação “superior a 50% mas inferior a 75% do capital”, a outra sociedade destacada, neste caso com uma participação inferior a 50%, é Pontegadea Shareholdings Luxembourg, a mesma sociedade que agora canaliza a operação da Austrália.
Executivos em Luxemburgo
Esta sociedade, uma das que compõem Pontegadea Luxembourg, foi constituída no território europeu em dezembro de 2024, em pleno processo de reorganização do grupo. Segundo a informação consultada por este meio, figuram entre os administradores da filial vários dos pesos pesados do grupo. Roberto Cibeira, o CEO de Pontegadea e homem forte após a aposentadoria de José Arnau; Patricia Alonso, número dois do grupo familiar e responsável global por investimentos (tanto imobiliários quanto os que não são), e Adrián Rodríguez Pombo, executivo da companhia que trabalha precisamente desde Luxemburgo e ocupa o cargo de country manager na zona da Europa continental, excetuando as operações em Espanha e Portugal.
Ao lado de ativos logísticos e outras grandes participações empresariais de Pontegadea fora da Inditex em Espanha e Portugal não passam por Luxemburgo. Os 5% da Redeia estão nas mãos de Pontegadea Investimentos, o mesmo que a participação na Telxius e na portuguesa REN, enquanto que o pacote em Enagás é gerido através da Partler.
É importante ter em conta que, de qualquer forma, Pontegadea Investimentos, com sede na Corunha, é a última cabeça do negócio luxemburguês de Ortega Gaona.