Marta Ortega contrata Galliano para a virada da Zara para o luxo acessível, com a Inditex duplicando o valor da Dior na bolsa
Apesar da queda de capitalização derivada da guerra no Oriente Médio, a multinacional têxtil tem um valor de 160.000 milhões de euros, praticamente o dobro da companhia que tornou famoso a Galliano e a 35.000 de distância de Hermes
Marta Ortega contratou John Galliano para uma colaboração de dois anos para reinterpretar coleções da Zara, após se conhecerem no âmbito de atividades da fundação da filha de Amancio Ortega
Marta Ortega acaba de dar um passo gigante na carreira que iniciou há quatro anos, quando assumiu a presidência não executiva da Inditex e Zara acelerou no seu processo de aproximação às marcas de luxo acessível. Desde então até agora, deu passos para focalizar a marca líder do grupo num segmento premium, com colaborações com designers de alta costura como Narciso Ramírez ou Stefano Pilati e coleções cápsula com ícones da moda como Kate Moss. E acaba de subir um novo degrau, ao chegar a um acordo para contratar o designer John Galliano, ex-diretor criativo da Dior e da Maison Margiela, para uma série de coleções nas quais redesignará peças de temporadas passadas por um período de dois anos. Todo um golpe na mesa da multinacional de Arteixo que, curiosamente, tem um valor para os investidores neste momento de mais de 160.000 milhões de euros, praticamente o dobro da marca francesa que deu fama ao gibraltarenho.
Há anos que a Inditex apostou por elevar a categoria da Zara. Primeiro foram suas grandes flagships, lojas que abandonaram os centros comerciais para se localizarem em zonas premium das grandes cidades, com um alto investimento para integrar a compra tradicional e o canal online. Depois, as colaborações pontuais com grandes fotógrafos e modelos da alta costura. O processo acelerou-se com a ascensão de Marta Ortega à presidência da Inditex, que assumiu o cargo quase ao mesmo tempo que lançava, em A Corunha, sua própria fundação, MOP, focada na promoção da fotografia e da moda e que, a cada ano, com a inauguração de suas exposições – atualmente ainda pode ser vista a dedicada à obra de Annie Leibovitz – reúne na cidade herculina os grandes nomes da moda.
Sem ir mais longe, Galliano indicou a Vogue que sua colaboração com Zara nasceu das conversas que manteve com Ortega Pérez quando se conheceram precisamente através da fundação MOP.
O de Galliano não foi o único golpe de efeito no posicionamento da Zara como uma marca de luxo acessível que deu a companhia no que vai de 2026. O primeiro e sonoro movimento esteve no estratosférico escaparate mundial que é o Super Bowl, a final da liga de futebol americano, quando a mega estrela Bud Bunny entrou no estádio vestido da marca galega. Então, o analista da eToro Javier Molina indicou que se tratava “de um sinal estratégico para os investidores de sua aposta como marca de luxo”. Um “luxo funcional de massas, que não compete por preço nem exclusividade, mas sim por identidade e narrativa”.
Na sua estreia comunicativa, meses antes da revolução que supôs a saída de Pablo Isla do grupo têxtil, Marta Ortega declarou ao Financial Times que não reconhecia a Inditex como um grupo de fast fashion. Desde então até agora, a distância é cada vez maior.
Inditex resiste mais que o luxo na bolsa
Mas, será rentável essa aposta para Inditex? Por enquanto, a multinacional de Arteixo apresenta uns números na bolsa que superam aos de muitas das empresas consagradas do luxo. Atualmente, e apesar do golpe que representou na sua cotação a guerra no Oriente Médio ante o temor dos investidores por uma desaceleração do consumo, apresenta uma capitalização de 160.126 milhões de euros, praticamente o dobro que Dior –integrada de forma operativa em LVMH– que toca nos 82.000 milhões de euros.
No que vai de exercício, Inditex viu como sua ação retrocede um 8,77% apesar dos bons resultados anuais apresentados na semana passada e de contar com o favor da maioria dos analistas. No entanto, as marcas tradicionais de luxo, que têm em Oriente Médio um dos seus mercados estratégicos, foram ainda mais castigadas.
As ações de Christian Dior caíram um 24% no que vai de ano. As de LVMH ainda mais, um 26,78%, embora o grande veículo da família Arnault se mantenha como a segunda maior companhia cotizada da zona euro, com um valor bursátil de algo mais de 238.000 milhões de euros.
Inditex chegou a alcançar neste 2026, antes do golpe da guerra no Irã, os 180.000 milhões de euros de capitalização, uma cifra não muito distante da que apresenta atualmente outro gigante do luxo, Hermes, que fechou esta terça-feira a sessão na bolsa com uma capitalização de 194.500 milhões de euros. No que vai de ano, o título retrocedeu algo mais de um 13%.