As chaves do recuo da Inditex na China: quase 500 lojas a menos em seis anos

O consultor e especialista em estratégia de varejo Pau Almar analisa a presença da multinacional galega no país asiático, que passou de operar mais de 600 lojas em 2020 para 140 em 2026

Nova loja da Zara em Nanking (China)

Inditex passou de operar mais de 600 lojas na China e outros territórios do entorno para pouco mais de uma centena. A 31 de janeiro de 2020, segundo os dados do relatório anual do exercício de 2019, a empresa somava um total de 632 lojas, 570 na China, 30 em Hong Kong, 23 em Taiwan e 9 em Macau. Seis anos depois, o número de estabelecimentos ascendia a 140 (111 na China, 9 em Hong Kong, 19 em Taiwan e 1 em Macau).

Em uma publicação no seu perfil do Linkedin, Pau Almar, consultor e especialista em estratégia de varejo que trabalhou para marcas como Zara ou Mango, analisa o comportamento do carro-chefe da Inditex no país asiático. “A China se tornou um pesadelo para muitas marcas de moda europeias” e um dos motivos é a expansão do “Guochao”, uma corrente cultural e de consumo que aposta no consumo de produtos nacionais ou tradicionais em oposição às opções mais modernas e/ou estrangeiras.

Segundo explicou Almar à Economía Digital Galiza, “a Zara, ao contrário de muitas marcas, tem o que se chama uma cesta de compras que é mundial, onde utiliza praticamente todos os principais produtores sérios de produção têxtil e calçados do mundo. Isso exclui alguns países como Rússia, Cazaquistão, Uzbequistão, Colômbia, México ou Brasil, que embora produzam, não o fazem com os níveis internacionais de qualidade e preço. Com o que compra localmente na China faz duas coisas. Uma parte do estoque fica lá. Como comprava tanto lá, e continua sendo um mercado importante, não fazia sentido trazer todo esse estoque para a Europa para depois enviá-lo de volta. De fato, na China conta com um pequeno centro de distribuição que está em Xangai”. A outra parte do estoque que compra lá é enviada para a Europa.

“Os sistemas de envio e distribuição estão sincronizados para que às lojas da China chegue por um lado o que vem da Europa e ao mesmo tempo, o que chega distribuído desde o próprio país. Isso é algo que só acontece com China, Japão e Coreia, onde há uma parte que é abastecida dentro dos próprios países. São a exceção que confirma a regra dentro da sua cadeia de suprimentos, que sempre recebe em um lugar e dali envia para o mundo todo. A isso se soma algo que só eles podem fazer pelo seu volume: no caso eventual em que o estoque que ficou na China não seja suficiente para abastecer esse mercado, podem enviar da Europa reposição diretamente para as lojas, ou seja, podem repor as lojas da China quando um modelo do centro de distribuição se esgota.”

O funcionamento da cadeia de suprimentos do gigante têxtil é importante para entender a expansão do fenômeno Guochao. Como explica Almar, os consumidores enfrentam “produtos que compraram na China e que estão sendo vendidos a um preço mais caro, quando têm a alternativa de ir a vários players locais que se dedicam sistematicamente a copiar a Zara, oferecendo o mesmo a um preço muito mais barato, já que não têm todo o custo da cadeia de suprimentos”.

Há outro aspecto relacionado ao preço que Pau Almar destaca. A China, por ser um país produtor, geralmente tem tarifas de entrada para origens que não são as suas, embora existam alguns destinos que têm tarifa zero ou muito reduzida. Como a cesta de compras da Inditex não é só da China, quando entra o produto que vem de outros lugares é aplicada uma tarifa que encarece o produto, algo que somado ao próprio custo da cadeia de suprimentos que “é muito mais importante do que a de um fabricante local que tem as lojas lá e por isso pode fazer mais barato”.   

Além disso, há uma variável a mais: “a queda muito relevante da economia chinesa”. Como detalha Almar, o retrocesso experimentado pela “bolha imobiliária e o impacto das tarifas também geraram uma queda do salário médio das pessoas”. “Esse contexto fez com que sejam mais reticentes a comprar fora quando realmente, no caso da Inditex, o que te oferecem é praticamente o mesmo que oferece um local. De fato, todas as marcas, salvo a única exceção que é Moncler, que é a única marca que realmente está crescendo”. O grupo italiano de roupas de luxo informou na última terça-feira um aumento de 6% em suas receitas no primeiro trimestre impulsionado principalmente pelo desempenho na Ásia, seu principal mercado. 

Excluindo os efeitos da taxa de câmbio, as receitas da Moncler aumentaram 12% até 881 milhões de euros no trimestre, superando as previsões dos analistas fornecidas pela própria empresa, que estavam em 841 milhões de euros.

A aposta da Inditex na China

Em um cenário marcado por forte concorrência local, com políticas de descontos muito agressivas, tanto nas próprias lojas quanto nas redes sociais, e uma mudança no paradigma de consumo, Almar apontava em sua publicação no Linkedin que “a Zara não pode ganhar simplesmente imitando e precisa de duas coisas: investimento – real, visível e sustentável – e deslocalização na tomada de decisões.” 

Na conversa com este meio, o especialista em varejo ressaltou que “o mercado asiático em geral, e especialmente o chinês, japonês e coreano, são bastante especiais”. “São mercados que você tem que entender e tem que falar a língua deles. E a língua deles não é simplesmente mudar os caracteres, mas competir onde todo mundo compete. Lá você tem WeChat, Taobao, Tmall, têm redes sociais diferentes como Daoyin, que não é exatamente igual ao TikTok. Em resumo, é preciso entender um ecossistema muito diferente, sobretudo no e-commerce, baseado em descontos muito agressivos. Essa narrativa e essa maneira de fazer é o normal na China e a Zara não sabe se mover nesses lugares”.

“Sou uma marca muito forte, tenho uma presença local e uma presença física muito importante e penso que simplesmente por isso e pela trajetória de anos as pessoas vão vir sem que eu tenha gasto de forma proativa em marketing onde eu bata à porta dos influenciadores, da imprensa, etc. Isso é uma maneira de fazer para a qual a Inditex não está preparada”.

Almar aponta outros dois aspectos em que a estratégia da multinacional galega no país asiático falha. Um deles está relacionado com o próprio produto e é a questão dos tamanhos. “O usuário chinês está ficando cada vez maior pela saída da pobreza em que estiveram durante muitos anos. Ainda assim, continuam existindo diferenças reais na morfologia do corpo chinês que não são levadas em conta. Também não se considera a questão da climatologia e os eventos próprios chineses. Você tem o Chinese New Year, que é verdade que há coleção da Zara que sai justamente antes, mas só isso, são apenas gestos pontuais.”

O outro ponto está relacionado com as lojas. Segundo Almar, “se dedicasse mais recursos para entender como funciona especialmente o mercado chinês, tiraria muito mais rendimento e para isso teria que entender como se compete lá, quais são os ecossistemas, quais são as lojas”.

“Se você olhar as lojas de luxo, as lojas mais chamativas estão abrindo em Chengdu ou Pequim. A Zara abriu uma loja em Nanjing muito bonita, mas só isso. Não está abrindo em Pequim uma loja como a que podem ter aqui no Paseo de Gracia ou em Compostela”. 

Histórias como esta, na sua caixa de correio todas as manhãs.

Deixe um comentário

Um Panamera a preço de MG? Assim são as últimas apostas da SAIC para conquistar a Europa

Com modelos como o MG 07, um sedan que lembra pelo conceito o Porsche Panamera, a SAIC quer levar a marca de origem britânica a uma nova dimensão que inclui SUVs elétricos de última geração ou pick-ups

Imagem: MG

MG dá um passo mais na sua evolução. Sob a direção da SAIC, o gigante chinês que projeta no Porto de Ferrol a sua primeira fábrica na Europa, a marca está ampliando seu catálogo com modelos cada vez mais sofisticados, afastando-se da imagem de fabricante de carros de altas performances a preços acessíveis. Um desses modelos é o MG 07, que representa um dos movimentos mais ambiciosos da nova etapa da marca sob o guarda-chuva da SAIC Motor, com o qual se afasta da imagem de fabricante focado em modelos acessíveis. Esta berlina fastback com um claro enfoque esportivo aspira a se posicionar em um mercado mais sofisticado, com um design que lembra algumas propostas de alta gama, como o Porsche Panamera.

O MG 07 estará disponível em uma versão elétrica e outra híbrida. A primeira utilizará uma bateria de 67 kWh (quilowatts/hora) que lhe proporcionará uma autonomia de até 650 quilômetros; também estará disponível outra variante com 610 quilômetros de autonomia. Em ambos os casos, o motor elétrico, situado sobre o eixo traseiro, desenvolverá uma potência máxima de 176 kW, cerca de 239 CV.

MG 07
Imagem: MG

Por sua vez, a variante híbrida plug-in combina um motor atmosférico a gasolina de 1,5 litros, com 82 kW de potência, com um sistema elétrico que atinge 152 kW. Este modelo viria equipado ainda com uma bateria de 30 kWh que lhe proporcionaria uma autonomia de até 185 quilômetros.

Outro dos pontos fortes do MG 07 é seu equipamento tecnológico. Em concreto, conta com o sensor no teto (LiDAR) que o habilita para utilizar a plataforma de condução inteligente Momenta R7, uma plataforma de software baseada em inteligência artificial que permite ao veículo interpretar o ambiente, antecipar situações e tomar decisões de condução mais complexas.

Segundo as previsões de meios especializados, este modelo será lançado à venda na China com um preço que oscilaria entre 150.000 e 200.000 yuans (22.000 e 29.500 euros na conversão). Caso chegue ao nosso mercado, os especialistas prevêem um preço superior a 40.000 euros, embora ainda manteria uma posição agressiva frente a muitas berlinas elétricas de fabricantes tradicionais.

Mais modelos da marca da SAIC

Outra das grandes apostas da casa de origem britânica é o MG 4X, uma das apostas com as quais SAIC aspira ampliar sua presença no mercado dos SUVs elétricos. Concebido como uma evolução do MG4, este modelo está disponível com dois níveis de potência: um de 125 kW, de 168 CV, e outro de 150 kW, de 201 CV. Quanto à autonomia, também inclui duas opções: por um lado, um sistema de 53,9 kWh de tecnologia líquido-sólido que proporciona até 510 quilômetros de autonomia; por outro, uma bateria de 64,2 kWh de fosfato de ferro-lítio (LFP), que alcança 610 quilômetros de autonomia.

Com um design que aposta numa imagem mais robusta e moderna, com traços próprios dos novos modelos elétricos da marca, este modelo incorpora uma arquitetura elétrica de nova geração, assim como soluções de conectividade e sistemas inteligentes de assistência à condução.

Embora inicialmente o MG 4X estivesse pensado para distribuição exclusiva na China, a SAIC confirmou no final de maio que o sistema de bateria líquido-sólido também chegaria à Europa e Reino Unido antes do final deste ano.

Outra evolução é o MG4 EV Urban, uma variante que busca aproximar a tecnologia elétrica a um público mais amplo oferecendo uma proposta mais simples e focada num uso mais urbano.

MG4 EV
Imagem: MG

O novo MG4 EV Urban está disponível com dois níveis de potência. A versão de acesso combina uma bateria LFP de 42,8 kWh com um motor elétrico de 150 CV, enquanto as variantes superiores elevam a potência até 160 CV graças a uma bateria de 53,9 kWh. Em ambos os casos aposta na tração dianteira e numa configuração orientada para a eficiência e o uso cotidiano, com autonomias homologadas de até 416 quilômetros.

Aposta nas pick-ups

Um dos últimos modelos lançados pela marca é o MG U9, que marcou sua entrada em um dos segmentos mais importantes na Austrália, Oriente Médio e América Latina: o das pick-ups médias.

Imagem: MG
Imagem: MG

Com um comprimento de 5,5 metros, este modelo foi desenvolvido para competir diretamente com modelos como a Toyota Hilux, a Ford Ranger ou a Volkswagen Amarok. O MG U9 busca se diferenciar com uma presença muito semelhante à dos SUVs modernos, com um habitáculo interno digitalizado e um amplo equipamento tecnológico.

O MG U9 está equipado com um motor turbodiesel de 2,5 litros que desenvolve cerca de 218 CV e 520 Nm de torque, associado a uma transmissão automática de oito velocidades e a um sistema de tração total conectável.

Os planos da SAIC na Galiza

No início do mês, a Xunta oficializou nesta segunda-feira a chegada da SAIC à comunidade após declarar a iniciativa do grupo, que criará cerca de 2.300 empregos na comunidade, como um Projeto Industrial Estratégico.

As previsões da companhia são que a fábrica, que requererá um investimento inicial de 200 milhões, esteja operacional em 2028. O projeto será dividido entre Ferrol, no porto exterior e na zona logística de Mandiá, e As Pontes. O objetivo de produção nesta fase é de 120.000 veículos por ano, com início em dois anos.

No próximo ano começarão as obras. Em Ferrol serão criados mil empregos diretos, e outros tantos indiretos, enquanto em As Pontes serão 300 os novos postos de trabalho.

Histórias como esta, na sua caixa de correio todas as manhãs.

Deixe um comentário

Amancio Ortega e Macquarie conquistam os acionistas da Qube, que aprovam a venda do grupo por 7.000 milhões

O 98% dos acionistas que compareceram à assembleia apoiam a operação, que está pendente de três aprovações regulatórias; uma vez concluída, o que está previsto para os dias 7 e 8 de julho, a Pontegadea controlará 15% do grupo logístico e portuário australiano

O fundador da Inditex, Amancio Ortega, durante o concurso de saltos internacional da Corunha, enquadrado de forma excecional no Longines Global Champions Tour, campeonato de referência no panorama equestre que enfrenta o primeiro dos seus três dias em Casas Novas- EFE/Cabalar

Pontegadea, o holding familiar de Amancio Ortega, deu um passo decisivo para fechar uma das suas maiores operações internacionais fora do setor imobiliário. Os acionistas da Qube aprovaram a venda do operador logístico e portuário australiano por cerca de 7.000 milhões de euros a um grupo de investidores liderado pela Macquarie e do qual faz parte o fundador da Inditex. Fizeram-no numa assembleia realizada nesta terça-feira e com ampla maioria, pois 86,7% dos votos emitidos apoiaram a operação, enquanto 13% votaram contra.

Uma vez concluída, Amancio Ortega controlará 15% da companhia, para o que terá que desembolsar cerca de 700 milhões, como adiantou este meio. O investimento supera os fundos desembolsados para adquirir suas participações na PD Ports, Q-Park, Redeia, Enagás ou Telxius. A Macquarie controlará 65% e a UniSuper terá os 20% restantes. Este fundo, proprietário de 15% do capital da Qube, não votou na assembleia de acionistas por integrar o grupo comprador. Realizou posteriormente sua própria assembleia, na qual também aprovou a operação de forma unânime.

Embora fosse um passo chave para os compradores, Macquarie e Pontegadea ainda devem obter algumas autorizações regulatórias para completar a transferência, que será executada através da sociedade australiana Rubik Australia Pty Limited. Especificamente, devem dar o aval à transação a Junta de Revisão de Investimentos Estrangeiros (FIRB) da Austrália, o Escritório de Investimentos no Exterior (OIO) da Nova Zelândia e a Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores (ACCC).

Segundo o calendário apresentado pela Qube, a audiência final no Tribunal Supremo de Nova Gales do Sul para a aprovação definitiva está prevista para 7 de julho, pelo que a companhia será excluída da cotação em bolsa no dia seguinte, 8 de julho.

Um conselheiro da Alcoa, mestre de cerimônias

O conselho da Qube recomendou aos acionistas antes da assembleia, meses antes de fato, que aceitassem a oferta. No dia, foi o presidente, John Bevan, quem dirigiu uma cerimônia mais próxima da prosa que da poesia. “Hoje é um dia significativo na história da Qube”, disse o ex-CEO da Alúmina Limited, coproprietária da refinaria da Alcoa em San Cibrao até 2024, e atual conselheiro do produtor norte-americano de alumínio.

“A Qube cresceu com sucesso desde sua fundação em 2006 até se tornar hoje um fornecedor líder de soluções logísticas com operações na Austrália, Nova Zelândia e região Ásia-Pacífico. Durante este período, crescemos de aproximadamente 150 funcionários e 30 locais para mais de 10.000 funcionários em mais de 200 locais”, acrescentou Bevan, que foi nomeado presidente apenas alguns dias antes de o consórcio de investidores liderado pela Macquarie e Pontegadea, apoiados pela UniSuper, oficializar sua oferta.

O pagamento de 5,20 dólares australianos por ação, explicou o executivo, valoriza o patrimônio líquido da Qube em 5.600 milhões e implica uma avaliação total do grupo, somada a dívida, de 7.100 milhões na cotação atual. Da mesma forma, representa um prêmio de 27,8% sobre o preço da ação no fechamento do dia anterior à apresentação da oferta e de 24% sobre o preço médio dos títulos até a apresentação dos resultados anuais. Macquarie e Amancio Ortega pagarão “aproximadamente” 14,5 vezes o ebitda dos últimos 12 meses da companhia.

Além disso, o conselho da Qube deu luz verde a um dividendo adicional de 0,3465 dólares australianos por ação para adoçar a operação.

Amancio Ortega chega à Austrália

Pontegadea desembarcará na Austrália através de Luxemburgo, a praça que escolheu como base de operações para a maior parte de seus investimentos internacionais. Controlará sua participação através da Pontegadea Logistics Holdings, que por sua vez depende de outra sediada no ducado, Pontegadea Shareholdings Luxembourg. Os quase 700 milhões de investimento irão para um holding australiano onde estarão representados os três investidores: Rubik Australia Holdings Pty Limited. Desta sociedade controlarão a empresa compradora, Rubik Australia Pty.

Segundo consta no folheto da aquisição, a operação conta com o respaldo financeiro de um grupo de nove entidades: Australia and New Zealand Banking, Canadian Imperial Bank of Commerce, Commonwealth Bank of Australia, The Hongkong and Shanghai Banking, ING Bank, Morgan Stanley Bank, National Australia Bank, Natixis e Westpac Banking Corporation. Entre todas comprometeram créditos no valor de cerca de 3.000 milhões com o objetivo de utilizá-los na própria compra da Qube ou na refinanciamento de dívida e linhas de crédito do operador logístico.

Histórias como esta, na sua caixa de correio todas as manhãs.

Deixe um comentário

ASSINE A ECONOMIA DIGITAL

Cadastre-se com seu e-mail e receba as melhores informações sobre ECONOMIA DIGITAL totalmente grátis, antes de todo mundo!